A invenção que ensinou as imagens a contar histórias

As pessoas contam histórias com imagens há milhares de anos. Pinturas em túmulos do antigo Egito, por exemplo, registravam etapas do plantio e da colheita; séculos depois, a Tapeçaria de Bayeux, com cerca de 70 metros, narrou a conquista normanda da Inglaterra em uma sequência visual contínua. Essas obras anteciparam algumas possibilidades dos quadrinhos, mas não organizavam as cenas em quadros separados.

Essa diferença é decisiva. Quando uma imagem se prolonga sem divisões claras, o público pode precisar conhecer previamente a história ou ouvir alguém explicar o que está vendo. A imagem apresenta acontecimentos, mas não indica com precisão onde uma cena termina, quando a próxima começa ou em que ordem os episódios devem ser lidos.

O quadro transformou a imagem em sequência: passou a indicar mudanças de cena, sugerir a passagem do tempo e orientar o olhar do leitor.

Um quadro é uma imagem delimitada por uma borda e organizada ao lado de outras imagens. Embora pareça apenas uma moldura, ele também funciona como uma instrução: mostra o que pertence a uma cena e ajuda a definir qual acontecimento vem antes e qual vem depois. Assim, uma técnica visual simples deu às imagens uma estrutura capaz de sustentar narrativas complexas.

De Rodolphe Töpffer à narrativa em sequência

Em 1837, o professor suíço Rodolphe Töpffer publicou A história do senhor Vieux Bois, obra organizada em páginas com um a seis quadros e textos curtos abaixo das imagens. Em vez de mostrar apenas uma situação isolada, o formato permitia acompanhar ações e consequências ao longo de várias cenas. O escritor alemão Goethe teria ficado impressionado com o trabalho e recomendado sua publicação.

A inovação foi acrescentar às imagens uma noção clara de antes e depois. Uma personagem podia entrar em cena, tomar uma decisão e enfrentar o resultado dessa escolha em quadros sucessivos. Essa organização tornou possível narrar aventuras mais longas sem depender de uma explicação oral para ligar cada imagem.

Mas parte importante da história não aparece desenhada. Entre um quadro e outro existe um espaço vazio, chamado de sarjeta nos estudos sobre quadrinhos. O leitor preenche esse intervalo com a imaginação: se uma imagem mostra uma pessoa prestes a abrir uma porta e a seguinte a apresenta em outra sala, é o público que deduz o movimento que aconteceu entre as duas.

O teórico Scott McCloud destacou esse mecanismo em seu livro Desvendando os quadrinhos, publicado em 1993. A sarjeta permite que poucas imagens sugiram mais acontecimentos do que aqueles efetivamente desenhados, como quando um filme corta de uma cena para outra e o espectador entende que houve uma passagem de tempo. Em 1897, a presença de balões de fala em The Katzenjammer Kids ampliou ainda mais as possibilidades, pois os personagens passaram a conversar dentro dos próprios quadros.

Da tira de jornal ao negócio das histórias contínuas

No século 19, muitos quadrinhos publicados em jornais e revistas eram charges de um único quadro. Esse formato era eficiente para resumir uma situação ou fazer humor e crítica, mas tinha limites para narrar acontecimentos com várias etapas. Para mostrar uma sequência, os artistas precisavam de mais de uma imagem — e a organização em quadros tornou essa expansão possível.

A partir daí, ganhou força a publicação em série: uma história era apresentada em partes, em diferentes edições. O leitor que queria saber o que aconteceria depois tinha um motivo para voltar ao jornal na semana seguinte. A narrativa deixou de ser apenas uma imagem vendida uma vez e passou a funcionar como um produto capaz de manter o público interessado ao longo do tempo.

A disputa entre os jornais de Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst ajudou a ampliar os espaços dedicados aos quadrinhos, especialmente nas edições de domingo. As histórias também começaram a circular por meio de distribuição para diferentes jornais, um modelo que ampliava o alcance das obras e organizava a venda de conteúdo para vários veículos. Em termos simples, uma mesma série podia conquistar leitores em muitas cidades, sem que cada jornal precisasse criar uma história própria.

A serialização mudou a relação entre quadrinhos e leitores: cada episódio oferecia uma história, mas também criava a expectativa pelo próximo.

O papel limitador do papel — e a força de virar a página

Durante mais de um século, os quadros precisaram caber em páginas impressas de tamanho fixo. O espaço disponível influenciava quantas imagens podiam aparecer, qual seria o tamanho de cada uma e quanto espaço haveria entre elas. Muitas vezes, o artista precisava adaptar a cena à página, e não o contrário.

Um exemplo dessa herança é o formato de livro de quadrinhos usado tradicionalmente na América do Norte, com cerca de 16,8 centímetros de largura por 26 centímetros de altura. Esse padrão teria se consolidado a partir de experiências práticas de impressão nos Estados Unidos, nos anos 1930. Uma solução ligada à produção gráfica acabou moldando, por décadas, a aparência e o ritmo de uma forma de arte.

O papel, porém, oferecia uma ferramenta narrativa própria: a virada de página. Quando o leitor passa de uma página para outra, deixa de ver as imagens anteriores e encontra uma nova cena de uma só vez. O autor pode usar esse instante de surpresa para revelar um personagem, uma ameaça ou uma mudança importante na história.

No Japão, Osamu Tezuka ajudou a desenvolver formas de explorar esse recurso a partir dos anos 1940. Uma técnica conhecida como mekuri coloca uma cena decisiva perto do momento em que o leitor está prestes a virar a página. Desse modo, o gesto físico de continuar a leitura torna-se parte da encenação — quase como fechar uma porta antes de descobrir o que está do outro lado.

A crise que abriu espaço para os webtoons

A transformação seguinte começou em um país cuja indústria de quadrinhos enfrentava uma crise profunda: a Coreia do Sul. Em 1997, uma lei de proteção a jovens levou livrarias a retirar quadrinhos de suas prateleiras, enquanto a crise financeira asiática pressionava o consumo. O aluguel de livros também substituiu parte das compras, e, a partir de 2000, várias revistas de quadrinhos fecharam.

Com menos revistas e páginas disponíveis para publicação, muitos artistas procuraram novos espaços na internet. No começo dos anos 2000, os portais digitais precisavam de conteúdos capazes de manter os usuários em suas páginas, e os quadrinhos podiam ser oferecidos gratuitamente. Em outubro de 2003, Kang Full começou a publicar Romance Puro no serviço de quadrinhos do portal Daum, ajudando a levar histórias longas para a tela do computador.

A internet eliminou uma das principais limitações do papel: a necessidade de encaixar cada página em um formato físico. Sem folhas para virar, os artistas podiam organizar as imagens em uma sequência vertical contínua. As distâncias entre os quadros também podiam variar livremente, criando pausas maiores ou menores conforme a necessidade da narrativa.

Foi assim que se consolidou o webtoon, formato de quadrinhos digitais associado à rolagem vertical. Em vez de avançar página por página, o leitor desliza a tela para baixo, movimento especialmente adequado aos celulares e ao uso do polegar. Essa forma de leitura não apenas mudou o suporte: permitiu que o artista controlasse com mais precisão o momento em que cada imagem aparece.

Como a rolagem vertical muda o ritmo e a emoção

Em um livro impresso, muitas imagens de uma página podem ser vistas ao mesmo tempo. Na rolagem vertical, o leitor encontra cada trecho aos poucos, conforme movimenta a tela. Por isso, o autor consegue esconder uma imagem abaixo da área visível e revelá-la somente quando o leitor continua a deslizar.

Essa característica é particularmente útil em histórias de suspense e terror. O artista pode deixar um espaço vazio maior antes de uma aparição assustadora, fazendo o público avançar a tela e esperar pela revelação. No papel, uma página inteira pode mostrar antecipadamente várias cenas; no celular, a próxima imagem pode permanecer oculta até o instante escolhido pelo criador.

A largura variável dos intervalos também altera a sensação de tempo. Quadros muito próximos podem sugerir uma ação rápida, enquanto uma distância longa entre imagens pode criar silêncio, expectativa ou tristeza. O leitor ainda escolhe a velocidade de leitura, mas a composição da tela passa a influenciar esse ritmo de maneira mais direta.

  • Mais controle sobre a revelação: o artista decide quando uma imagem entra no campo de visão.
  • Pausas ajustáveis: espaços maiores ou menores entre quadros podem acelerar ou desacelerar a leitura.
  • Adaptação ao celular: a rolagem vertical aproveita uma tela estreita e o gesto cotidiano de deslizar o polegar.

Um formato sul-coreano conquista mercados internacionais

Durante muito tempo, a indústria japonesa de quadrinhos continuou apoiada em revistas impressas, livros reunidos em volumes e adaptações para animação e produtos derivados. Como esse sistema funcionava, havia menos pressão para abandonar o papel. Autores, editores e leitores também estavam acostumados a uma linguagem construída para páginas e revistas.

Esse cenário começou a mudar com a expansão da leitura digital. Em 2025, os quadrinhos eletrônicos representavam 76,1% do mercado japonês de mangá, segundo os dados mencionados no artigo original, enquanto as vendas de revistas impressas de mangá caíram 12,7% em um ano. Em 2024, a editora Shueisha, conhecida por suas publicações impressas, lançou o aplicativo de rolagem vertical Jump Toon.

O crescimento dos webtoons não significa que os livros impressos vão desaparecer de imediato. Revistas e volumes continuam oferecendo uma experiência própria: páginas que podem ser vistas em conjunto, objetos físicos colecionáveis e uma leitura sem depender de tela ou conexão. Ainda assim, a expansão digital mostra que o público passou a encontrar histórias em outros formatos e que as editoras tradicionais também precisam experimentar.

As obras sul-coreanas podem circular por mais de um meio. Uma história publicada como webtoon pode alcançar leitores internacionais e, depois, inspirar animações, filmes ou outras adaptações. Essa possibilidade amplia a vida comercial de uma obra e transforma o quadrinho digital em parte de uma cadeia de produção de conteúdo, e não apenas em uma publicação para celular.

O futuro dos quadrinhos depende também da forma

A história dos quadrinhos é, em grande medida, a história de como as imagens são organizadas. Primeiro, os quadros deram ordem e duração às cenas; depois, a publicação em série criou o hábito de acompanhar histórias ao longo do tempo. Com o ambiente digital, a rolagem vertical alterou novamente a maneira como o público descobre cada imagem e sente o ritmo da narrativa.

A mudança que levou aos webtoons começou em um mercado em dificuldade, e não em um país cuja indústria parecia mais forte. A crise reduziu as opções disponíveis e incentivou artistas a procurar novos caminhos, enquanto os portais ofereciam uma plataforma que precisava de conteúdo. A combinação entre necessidade econômica, acesso digital e criatividade produziu uma linguagem que depois ultrapassou as fronteiras sul-coreanas.

A inovação não depende apenas de novas tecnologias: às vezes, ela surge quando uma indústria precisa abandonar hábitos antigos e encontrar uma forma diferente de chegar ao público.

No futuro, diferentes formatos provavelmente continuarão coexistindo. O papel pode preservar seu valor artístico e colecionável, enquanto os quadrinhos digitais exploram recursos próprios de telas, rolagem e publicação frequente. O ponto central é que cada mudança na organização das imagens também pode mudar o modo de contar histórias — e, com ele, a maneira como essas histórias chegam aos leitores.